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Adoecimento mental de jornalistas não é problema individual

15/09/2026

Stress headache, burnout and woman in office overwhelmed with workload at desk with laptop. Frustrated, overworked and tired woman with computer at startup, anxiety from deadline time pressure crisis

Pesquisa da Fundacentro e da FENAJ revela índices elevados de depressão, estresse, insônia e assédio. Os dados reforçam o dever das empresas de prevenir riscos psicossociais e rever a organização do trabalho.

Os números são fortes. E não podem ser tratados apenas como um conjunto de fragilidades individuais.

Pesquisa realizada pela Fundacentro, em parceria com a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), mostra que 50,2% dos participantes apresentaram sintomas de depressão. Quase metade relatou sintomas de insônia, 47,9%, e estresse, 47,8%. A ansiedade apareceu em 35,8% dos profissionais.

O estudo “Condições de Trabalho e Saúde Mental de Jornalistas no Brasil” ouviu 257 profissionais de diferentes regiões do país, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025. Os participantes tinham, em média, 18,6 anos de atuação.

O levantamento não permite afirmar que todos os sintomas foram provocados exclusivamente pelo trabalho. Tampouco substitui uma avaliação médica individual. Mas revela uma concentração de sofrimento que exige olhar para a maneira como o jornalismo está sendo organizado.

Os demais números ajudam a compreender essa relação. Segundo a pesquisa, 28% dos jornalistas estão em situação de “alto desgaste”, caracterizada pela combinação entre elevada demanda e baixo controle sobre o próprio trabalho. Além disso, 61,1% percebem pouco apoio social no ambiente profissional.

A violência também aparece de maneira expressiva. Pelo critério de Leymann, 37% foram classificados em situação de assédio moral. Outros 30,4% relataram episódios de cyberbullying.

Há ainda reflexos sobre a capacidade laboral: 51,8% apresentaram capacidade moderada para o trabalho e 33,1%, baixa capacidade.

Esses dados precisam ser lidos ao lado das transformações das redações: equipes menores, jornadas extensas, metas crescentes, vínculos precarizados e exigência de produção simultânea para texto, vídeo, redes sociais e podcast.

A tecnologia ampliou as possibilidades do jornalismo. Mas, em muitos casos, o chamado trabalho “multiplataforma” aumentou tarefas sem redimensionar equipes, jornadas, remuneração ou suporte.

Saúde mental também é obrigação do empregador

A Constituição assegura a redução dos riscos inerentes ao trabalho. A CLT, por sua vez, determina que as empresas cumpram e façam cumprir as normas de saúde e segurança.

Esse dever não se limita à prevenção de acidentes físicos. Também alcança riscos psicossociais como sobrecarga, assédio, metas abusivas, falta de autonomia, jornadas excessivas, ausência de apoio e cobrança permanente fora do expediente.

A NR-1 tornou expressa a necessidade de incluir os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. As empresas devem identificar esses fatores, avaliar sua intensidade e adotar medidas preventivas dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos.

Não basta oferecer palestras ou atendimento psicológico enquanto permanecem intocadas as condições que provocam o adoecimento. A prevenção adequada exige enfrentar a origem do risco.

Isso passa por jornadas e metas razoáveis, equipes suficientes, respeito à desconexão, canais seguros contra o assédio, capacitação de gestores e protocolos de proteção para profissionais submetidos a ameaças e ataques digitais.

Quando a doença se relaciona ao trabalho

Depressão, ansiedade e burnout podem ser reconhecidos como doenças ocupacionais quando houver relação causal ou concausal com as condições de trabalho.

O trabalho não precisa ser a única causa. Basta que tenha contribuído de maneira relevante para o surgimento ou agravamento da doença.

Dependendo do caso, o reconhecimento pode gerar consequências como benefício previdenciário acidentário, depósitos de FGTS durante o afastamento, estabilidade após o retorno e reparação por danos morais e materiais.

A responsabilidade da empresa, entretanto, não nasce automaticamente de um diagnóstico. Cada caso exige análise das condições de trabalho, do vínculo com a doença e das medidas preventivas efetivamente adotadas.

A pesquisa não condena individualmente qualquer empresa. Mas retira do setor a possibilidade de alegar desconhecimento sobre a dimensão do problema.

Quando metade dos profissionais pesquisados apresenta sintomas de depressão, não estamos diante apenas de histórias pessoais. Estamos diante de um alerta sobre o modelo de organização do trabalho.

Cuidar da saúde de quem produz informação é proteger o trabalhador, a qualidade do jornalismo e a própria democracia. Para as empresas de comunicação, esse cuidado não é apenas uma boa prática. É dever jurídico.

Nosso escritório é especializado em #direitonacomunicação para #jornalistas e #radialistas. 

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