Copa do Mundo de 2026 já apresenta desafios que vão muito além das quatro linhas. Questões migratórias, concessão de vistos, restrições de acesso a torcedores e jornalistas e diferentes políticas de segurança adotadas pelos países-sede colocam em evidência uma discussão complexa: até que ponto a soberania dos Estados pode coexistir com os compromissos institucionais assumidos perante o movimento esportivo internacional?
É importante lembrar que a FIFA não substitui governos nem possui autoridade superior às legislações nacionais. Países mantêm o direito de controlar suas fronteiras, definir critérios migratórios e aplicar suas próprias leis. Ao mesmo tempo, ao sediar uma Copa do Mundo, assumem compromissos específicos voltados a garantir o acesso de atletas, delegações, profissionais de imprensa e torcedores, preservando valores como igualdade de condições, inclusão e universalidade do esporte.
A tensão surge justamente quando esses dois interesses entram em rota de colisão. De um lado, a legítima autonomia dos Estados para tomar decisões relacionadas à segurança nacional e à política externa. De outro, a necessidade de assegurar que seleções, profissionais e torcedores não sejam submetidos a tratamentos diferenciados que possam comprometer a integridade da competição ou os princípios que historicamente orientam os grandes eventos esportivos.
A própria história mostra que esses desafios costumam ser resolvidos por meio do diálogo institucional. Um exemplo emblemático ocorreu no Brasil durante a Copa do Mundo de 2014. Apesar da proibição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios em diversos estados brasileiros, foi aprovada legislação específica permitindo a comercialização durante o torneio, atendendo a compromissos assumidos pelo país junto à FIFA. A medida demonstrou que, em determinadas circunstâncias, a soberania estatal e os interesses do movimento esportivo podem encontrar pontos de convergência sem que uma das partes precise abrir mão integralmente de suas prerrogativas.
Esse episódio evidencia que grandes eventos esportivos exigem soluções construídas por meio da cooperação, da negociação e do respeito mútuo entre governos, entidades esportivas e sociedade civil. Nem a soberania pode ser ignorada, nem os compromissos assumidos internacionalmente podem ser tratados como meras formalidades. O equilíbrio entre esses valores é fundamental para a legitimidade do torneio e para a proteção dos direitos dos envolvidos.
A Copa de 2026 talvez seja um dos maiores testes recentes dessa relação. Em um cenário marcado por tensões geopolíticas, debates sobre imigração e diferentes concepções de direitos e segurança, o desafio será encontrar mecanismos que preservem simultaneamente a autoridade dos Estados e os princípios de neutralidade, inclusão e isonomia que fazem do esporte uma linguagem universal. O sucesso desse equilíbrio poderá influenciar não apenas o futuro da Copa do Mundo, mas também a forma como o esporte dialogará com os grandes temas institucionais das próximas décadas.
Por Andrei Kampoff / sócio AK
AK Direito na Comunicação e no Esporte
Especialistas em Direito Desportivo, Compliance, Governança, Direitos Humanos e Direito da Comunicação.