O ataque militar ao Irã e a crise no Oriente Médio trouxe várias vítimas, colocou o mundo em estado de atenção, paralisou o futebol no país e colocou em xeque sua participação na Copa do Mundo de 2026. Com a escalada do conflito e a morte do Líder Supremo Ali Khamenei, a presença da seleção iraniana no Grupo G tornou-se uma questão de segurança nacional e diplomacia, sobrepondo-se ao direito conquistado em campo. O cenário agora é de incerteza absoluta sobre a viabilidade da delegação viajar para as sedes nos Estados Unidos.
O “Improvável” de Mehdi Taj
O pessimismo não vem de fora, mas do próprio comando do futebol iraniano. Em declarações recentes, publicada pelo jornal Marca, o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, foi enfático ao classificar a participação do país no Mundial de 2026 como “muito improvável”. Segundo Taj, a segurança da delegação e a impossibilidade logística de deslocamento em um cenário de guerra sobrepõem-se ao mérito esportivo. O dirigente destacou que a decisão final agora foge das quatro linhas e reside nas altas esferas de segurança nacional e internacional.
A FIFA no Centro da Crise
Diante do imbróglio, a FIFA já acionou seu gabinete de crise. A entidade diz que analisa de perto os desdobramentos do conflito, ja analisando diferentes cenários. Analisa não apenas a viabilidade técnica de manter o Irã no Grupo G, mas também a pressão política. O grande dilema reside na sede: com jogos previstos para Los Angeles e Seattle, a logística para uma seleção cujo país está em conflito direto com os Estados Unidos cria um pesadelo diplomático. A imprensa europeia fala na possibilidade de levar os jogos para o México, o que a entidade não confirma. Caso a desistência seja oficializada, os Emirados Árabes Unidos e o Iraque surgem como os nomes mais fortes para herdar a vaga, baseados no desempenho das eliminatórias asiáticas e no ranking da AFC.
O Fator Jurídico
Para entender as implicações legais de uma eventual saída do Irã, é importante observar o Regulamento Preliminar da Copa do Mundo de 2026, mais precisamente seu artigo 5º, itens 2 e 3, caso o Irá confirmar sua saída da Copa do Mundo, estas poderão ser suas sanções: (i) Qualquer associação que se retirar entre o envio do formulário de inscrição e o início da competição preliminar será sancionada com uma multa de pelo menos CHF 20.000. Qualquer associação que se retirar após o início da competição preliminar será sancionada com uma multa de pelo menos CHF 40.000 e (ii) Dependendo das circunstâncias da desistência, a Comissão Disciplinar da FIFA poderá impor medidas disciplinares adicionais, incluindo a expulsão da federação participante em questão das competições subsequentes da FIFA. A Comissão Organizadora da FIFA poderá decidir substituir a federação participante em questão que se retirou por outra federação.
No entanto, uma guerra, ou uma situação de conflito, que ponha em risco não a seleção, como torcedores e da própria imprensa do país, me parece caracterizar força maior. No Direito Desportivo, o reconhecimento desse estado é fundamental para proteger a integridade da competição e da própria federação. Esse entendimento para a saída do Irã evitaria uma punição mais severa da FIFA, como multas milionárias ou suspensões de ciclos futuros, uma vez que a impossibilidade de participação não decorre de vontade deliberada da Federação, mas de um contexto externo incontornável.”
O Artigo 5.1 do Regulamento da Copa confere ao Conselho da FIFA o poder de decidir sobre ‘casos de força maior’ de forma soberana. Se a integridade física dos atletas não pode ser garantida ou se há um impedimento legal de entrada no país-sede (EUA) por questões de estado, a FIFA deve agir para preservar o equilíbrio do torneio. O precedente da Iugoslávia em 1992 mostra que a continuidade da competição é o valor supremo, e a substituição por critérios técnicos é o caminho mais seguro para evitar o esvaziamento do Grupo G.
O Veredito das Urnas e das Armas
O futebol, historicamente, orgulha-se de ser uma ponte onde a diplomacia falha. Contudo, quando o campo de jogo se confunde com o campo de batalha, a bola para de rolar. A provável ausência do Irã em 2026 não será apenas uma perda esportiva para o Grupo G, mas um atestado de que, em tempos de guerra total, nem mesmo o maior evento do planeta é imune à fragmentação do mundo.
Se a FIFA confirmar a substituição nas próximas semanas, a Copa irá ficar marcada na história como mais uma em que o esporte perdeu pra guerra. O vazio deixado em Los Angeles e Seattle será o lembrete de que a paz no mundo ainda é uma utopia.
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